Artigo: Lixão de Vera - Proposta do prefeito Moacir é antieconômica e ambientalmente atrasada e absurda
Como previsto na reportagem do Vera News, não demorou 24 horas e prefeito Moacir Giacomelli tentou amenizar o impacto da denúncia sobre o descaso de sua administração quanto à destinação dos resíduos sólidos (lixo) de Vera. Convocou uma reunião com os vereadores e apresentou uma “proposta” que sangra os cofres públicos (com o pagamento em torno de R$ 300 mil anuais a uma empresa particular e de fora do município) e que do ponto de vista ambiental é absurda e vai na contramão do que de mais avançado está sendo feito em outros municípios do País.
O assunto é complexo mas vamos buscar uma síntese: um tratamento “filosófica e ambientalmente” adequado para o lixo urbano começa pela discussão do consumo, com medidas de conscientização para a redução da produção de lixo (como exemplo, o que começou esta semana em São Paulo, e também já adotado em outros locais, proibindo-se o uso de sacolas plásticas em supermercados etc.).
Como segunda questão, uma administração com um mínimo de visão “ambiental”, começa a resolver o problema do lixo com a implantação de um programa de separação e coleta seletiva do lixo (para o que é fundamental uma política pública e municipal focada na educação ambiental).
Com a simples separação do lixo, apenas como exemplo, já se teria de um lado em torno de 50% do lixo doméstico, que é a parcela do chamado material orgânico (restos de alimentos, folhas, sementes, restos de carne e de ossos, papéis, madeira etc.).
Ou seja: em vez de se pagar a preço de ouro para uma empresa de fora levar esse "lixo orgânico", o material pode ser transformado em "adubo orgânico", com a simples mistura a céu-aberto – com um trator de esteira ou uma pá-carregadeira. Vários municípios já adotam essa prática (como Campo Mourão, para citar uma região de onde muitos verenses vieram, onde a Prefeitura usa o adubo orgânico para suas necessidades e vende o excedente para particulares e outras cidades).
Ou seja: em vez de pagar para empresas levar embora esse lixo (como é a proposta do prefeito Giacomelli), os municípios geram emprego e receita para os cofres públicos – além melhorar os solos e o desenvolvimento das plantas, jardins, canteiros...
Quanto ao restante do lixo, é chamado de inorgânico, porque não possui origem biológica e é produzido pelo trabalho humano: vidro, metal, plástico, entulhos de construção etc.
Aqui também, em vez de “pagar para empresas levar esses materiais e obter altos lucros”, os municípios com visão ambiental estão estimulando e incentivando a criação de microempresas para “reciclar” esse lixo, com as várias alternativas já disponíveis – como a simples prensagem e embalagem de papel, papelão; ou a trituração dos plásticos e vidros... Dependendo da ousadia nos investimentos, podem mesmo ser criadas empresas para transformar esses produtos localmente (como exemplo, os plásticos, que podem ser reciclados para uso em bancos, postes, palanques de cerca etc.).
O mais grave da proposta do prefeito é que Vera já possui uma pequena empresa recicladora a "Bioplast" (que está crescendo e comprando novas máquinas e gera quase dez empregos diretos) e que, apesar dos insistentes pedidos, não tem recebido nenhuma ajuda ou incentivo fiscal do poder público, no sentido de melhorar sua estrutura e facilitar a coleta dos materiais na cidade.
Portanto, em vez de gastar R$ 118 reais por tonelada de lixo para uma empresa de fora (ou quase R$ 300 mil por ano) – como é a proposta do prefeito a ser enviada à Câmara e com “40 dias de prazo para definição” – o município de Vera deveria sim adotar políticas de educação ambiental, um programa de coleta seletiva de lixo e incentivar a constituição de microempresas para reciclar os resíduos domésticos e industriais.
Depois dessas ações, o eventual material restante poderá ser encaminhado para um “aterro sanitário”, medida aliás que será obrigatória a partir deste ano com a nova “Lei de Resíduos Sólidos”, aprovada pelo Congresso Nacional e sancionada pela Presidência da República.
Quanto à alegada dificuldade do prefeito para comprar uma área para o “aterro sanitário”, provavelmente a realidade fosse outra se Moacir Giacomelli tivesse priorizado essa questão de saúde pública e não a compra de uma Pajero por quase R$ 200 mil e de um terreno para um aeroporto (por R$ 300 mil) onde descem cinco aviões por ano (excluídos os de uso agrícola).
Se adotar a educação ambiental e a coleta seletiva de lixo, em vez de gastar dinheiro público, o município estaria se aliando à defesa do meio ambiente e gerando emprego e renda – como aliás era a principal promessa do candidato a prefeito Moacir Giacomelli.
*Jornalista e Mestre em Ciência Ambiental pela USP.